No Centro Cultural Contraviento, inaugurou-se a mostra “Cayendo hacia adelante” (Caindo para a frente) do artista rosarino Federico Cantini (1991) com textos de Daiana Henderson. A exposição de uma série de baixos-relevos em madeira e uma obra feita de barro natural do rio Paraná ocupou a pequena sala do Contraviento com grande interesse do público.
Trata-se de episódios artísticos que representam situações dramáticas, tensas e violentas da cidade. Situações duras como a madeira de nogueira que Cantini entalha e rebarba, na qual põe a sua força e sentimento. Situações escuras como o barro cru que manuseia até tirar alguma coisa a limpo, mas nada imaculado.
“São pequenos episódios”, dirá, simplesmente, o artista, sem querer entrar em detalhes porque prefere não falar; que fale a madeira e seus cortes, que fale o barro cozido e esculpido.
Mais do que falar, as obras guiam até um universo citadino, embarrado e lascado, que encontra uma conexão com o eixo temático Cultura e tráfico de drogas em Rosario do Contraviento.
Particularmente, conecta de maneira sutil com o poema Diego, de Eduardo D’Anna, que é exibido na sala vizinha do Contraviento.
A intertextualidade é apreciada ao ler e observar ambas as obras. Aparecem a espera, a desesperação, o desamparo, visitas não correspondidas, amores não correspondidos e lugares de uma Rosario faminta sem muita fome.

“Está olhando como quem espera que alguém chegue. Tomara, pensa ele, que alguém chegue. E tomara que seja ele, pensa. Tomara que, um dia, ele seja quem a sua mãe espera, e percebe que faz tempo que não pensava, não se esforçava por pensar, mesmo que seja um pouco”, escreve D’Anna e rima com aquelas madeiras que Cantini rasgou até lhes dar uma figura e um sentido.
“As paralelas se cortam no infinito, aí, exatamente onde ela, parada na porta da sua casa, tem fixados os olhos. Faz frio, o sol desce. Só fica a luz. Mas ele não volta à casa”, relata D’Anna e poderá rimar, sem dúvidas, com a obra do jovem artista.

Barro
Faz anos que Cantini atravessa o rio a remo até chegar na ilha e recolhe barro para as suas esculturas. Comenta que há tentativa e erro na escolha do local de onde será obtida a matéria prima. Aqui é muito arenosa, ali é muito macia.
O meio-termo é questão de olfato e também de sorte, porque a natureza desorienta: em questão de horas, o rio pode mudar a fisionomia e essência do terreno.
O trabalho de Cantini percorre um caminho semelhante a essa força natural para lavrar e dar um novo sentido ao barro até transformá-lo em “pequenos episódios”.
OBRAS:










