O Centro Cultural Contraviento realizou a primeira atividade aberta ao público: uma conversa com Daniel García, artista de Rosario. O quadro God give me strength III (Abstracción lírica), exibido no local, foi o gatilho para ele falar da sua experiência e do seu olhar como artista.
Com um tom suave e calmo, García narrou em primeira pessoa para os presentes, que acompanharam massivamente a atividade, o seu processo de criação e a relação com o ambiente que o alimenta no momento de se defrontar com o esboço. De fato, ele pegou o conceito de “conversa” para explicar o primeiro contato que mantém toda vez que começa uma obra.
“A conversa tem a ver com aquilo que eu faço com a pintura. De certa forma, eu converso com imagens, anúncios publicitários, grafites, obras de colegas artistas ou outras obras com as quais dialogo e me estimulam. Esse é um primeiro passo”, explicou para dar início a uma agradável conversa de quase uma hora e meia.
Nesse sentido, acrescentou: “O Eu que pinta não é diferente do Eu cotidiano que faz as compras e lava as roupas. É algo que vai se construindo. Não se trabalha sozinho, mas dialogando com o ambiente, com a comunidade tangível e não tangível, que pode ser outra obra”.
Um momento interessante de interação com o público presente, que acompanhou a conversa na sala principal do Contraviento, foi quando o artista explicou como ele observa sua obra em perspectiva com o passar dos anos. God give me strength III (Abstracción lírica), pano de fundo em preto e branco da conversa, é do ano de 2001. Passaram mais de 20 anos em que aconteceram infinitas mudanças na sociedade e no próprio artista.
“O meu olhar das obras muda. Felizmente, em geral, melhora com o passar do tempo. Nos meus quadros, não há um significado concreto que eu tenha vontade de transmitir. Não existe um ‘interpretem isto’. Não. Eu crio um ponto de partida para que cada um possa ter seus sentimentos. Pelo contrário, procuro que não seja bem claro aquilo que estou tentando dizer, que exista uma ambiguidade. Não quero encerrar o sentido no momento de contemplar a obra, quero que continue trabalhando e que continuem sendo observadas coisas, diferentes, inclusive com o passar dos anos”, explicou.
O processo
A respeito da sua forma de encarar e iniciar um novo trabalho, García admite que sempre procura um novo nascimento. “Toda vez que eu começo uma obra, sinto que começo desde zero, como se a experiência prévia não importasse em muitos casos. É por isso que eu gosto de tentar coisas novas, mudar de temas, de cores. Sou heterogêneo, não quero fazer sempre a mesma coisa.”
García possui um estilo próprio que consiste em esfumar parte da obra, algo sutil, mas que tem um significado. É possível observar isso em God give me strength III (Abstracción lírica). “Apago uma parte da imagem e pinto novamente acima, para gerar diferentes camadas e densidade. A obra não é algo instantâneo, vai se construindo no tempo e também vai se destruindo. Tem algo de humano, envelhece assim como nós, tem cicatrizes, coisas que lhe aconteceram e às quais sobreviveu. O objetivo é espelhar com sutileza esse passar do tempo, esses traumas.”
Que importância tem para você a transcendência da obra?, perguntou alguém do público. “Todo mundo quer que a sua obra tenha uma certa repercussão. Especialmente quando jovem, mas o mundo da arte virou esquisito. Hoje a espetacularidade da obra desempenha um papel, quer dizer, para ter acesso a determinados espaços, é preciso pagar um preço que eu não tenho interesse em pagar com o meu trabalho.”
Para concluir, explicou: “Por isso, há 20 anos, decidi que vou fazer o que eu quiser fazer independentemente das consequências que isso possa ter na minha carreira. Que sejam abertas as portas para este ou aquele espaço. Deixei isso de lado”.
Sobre a obra exibida
O quadro God give me strength III (Abstracción lírica), de 2001, pertence a uma série de obras que ele começou em 1999 e que inicialmente chamou Meditaciones. Anos mais tarde, no início de 2003, algumas dessas obras foram exibidas, junto com outras que também representavam objetos com um papel ambíguo (talvez protetor/defensor, mas podendo cumprir simultaneamente a função de aprisionar ou torturar), na exposição intitulada Bondage, no Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires. O fato de a obra ter dois títulos tem uma explicação. O título em inglês pertence a uma música escrita por Burt Bacharach e Elvis Costello, que o artista ouvia enquanto pintava essas obras. Por sua vez, “Abstracción lírica” é uma referência um pouco irônica a esse movimento pictórico, também conhecido como Action painting, cujas pinceladas gestuais e livres se transformam na obra no movimento de umas cadeias.





